Os sentidos, as emoções e a razão – 03

O propósito é compreender a leitura… não é dar uma receita ou chegar a conceituações.

O leitor pouco se detém no funcionamento do ato de ler, na intricada trama de inter-relações que se estabelecem.

Há três níveis de leitura… sensorial, emocional e racional.

Esses três níveis são inter-relacionados – mesmo um nível ou outro sendo privilegiado.

Como dissemos, cada pessoa reage a um estímulo de seu próprio modo; irá ler a seu modo.

(Exemplo: você vai ao shopping. Como você age? Há produtos que encantam… ignoram…)

Com a leitura acontece a mesma coisa. Por isso, a leitura tem mais sutilezas e mistérios do que a simples decodificação das palavras escritas. Tem também um lado de simplicidade que os letrados não se preocupam em revelar.

SENSORIAL – relaciona-se diretamente com os nossos sentidos (a visão, o tato, a audição, o olfato e o gosto/paladar).

Representa as nossas respostas imediatas às exigências e ofertas que esse mundo apresenta.

Relaciona-se com as nossas primeiras escolhas e motiva as primeiras revelações. Por isso mesmo, marcantes.

É através dessa leitura que vamos nos revelando para nós mesmos. (Descoberta das coisas agradáveis; rejeição das desagradáveis).

Ela vai dando a conhecer o leitor do que ele gosta e do que não gosta… mesmo inconscientemente e sem a necessidade de racionalizações.

Leitura sensorial começa muito cedo e nos acompanha por toda a vida.

Na criança, essa leitura, através dos sentidos, apresenta/revela um prazer singular (maior que a do adulto) e curiosidade (mais espontânea).

Vejamos, por exemplo, a relação de uma criança com um livro. Como se dá a leitura sensorial?

Antes de ser um texto escrito, um livro é um objeto. Tem forma, cor, textura…

Esse jogo com o universo escondido do livro vai estimular na criança o aprimoramento e o desenvolvimento da linguagem, desenvolvendo sua capacidade de comunicação e reação ao mundo.

Já os adultos tendem a uma postura mais inibida – em relação ao livro e também outros objetos passíveis de leitura.

Isto acontece até em função do culto ao livro… status adquirido.

Interessante é que, mesmo com o advento de outras formas de comunicação (rádio, tevê, Internet etc), o culto ao livro foi acentuado.

Esse raciocínio alimentado por letrados e intelectuais ajuda a sustentar o culto à letra e aos livros.

Isto ocorre porque ajuda a manter o sistema de dominação. Explicando… os possuidores da palavra escrita possuem uma aura mística / leva os demais à submissão.

Exemplo: censura por parte dos governos; no passado, censura da igreja etc.

Voltando à questão do nível sensorial, por conta da importância que tem os nossos sentidos para a atração ou rejeição ao livro, a aparência de um livro é fundamental (impressiona bem ou mal – inclusive, a diagramação).

Racionalistas dirão: o importante é o que está escrito.

É verdade, mas num primeiro momento o que conta é a nossa resposta física aos sentidos – a impressão de nossos sentidos sobre aquilo que nos cerca.

Só que aquela primeira impressão passa. O que era bonito, fica feio… Assim, quando uma leitura nos faz ficar alegres ou deprimidos, desperta a curiosidade, estimula a fantasia, provoca lembranças etc, estamos entrando noutra área. Significa que deixamos de ler com os sentidos para ler também no nível emocional.

EMOCIONAL – a leitura emocional também tem seu teor de inferioridade… implica falta de objetividade, subjetivismo.

No terreno das emoções, as coisas ficam ininteligíveis.

Possuem relação direta com o nosso inconsciente.

A leitura emocional tem aspectos curiosos. Por exemplo, certas coisas tem o poder de libertar nossas emoções; levam-nos a outros tempos e lugares. (Lugares, cheiros, músicas… provocam lembranças, sentimentos…)

Diante disso, muitas vezes, quando nos percebemos dominados pelos sentimentos, nossa reação tende a ser negá-los (Freud explica como mecanismo de defesa).

Por tudo isso, tentamos escamotear ou justificar uma leitura emocional. Mas por que negar?

Por um lado, não queremos parecer comuns (queremos parecer donos de nossos sentimentos… conduta pré-fabricada…. queremos apresentar personalidade); por outro, somos intolerantes a manifestações que fogem aquilo que chamamos de reação equilibrada.

Ocorre também lembranças mais prosaicas, desagradáveis. Leitura para uma prova, por exemplo. Se for algo que não nos agradou, pode sempre remeter-nos à lembranças desagradáveis.

Isso também pode acontecer em relação a pessoas, lugares…?

No nível emocional, é preciso pensar a leitura como algo que provoca – ou não – empatia (participação afetiva – às vezes, até nos sentimos na pele do personagem).

Neste contexto, é preciso pensar o texto não mais como algo que o leitor sente, mas como algo que acontece com o leitor – o que ele faz, provoca em nós.

Às vezes, temos uma semiconsciência de estarmos lendo algo medíocre, mas gostamos; outras, algo importante, mas nos desagrada. Temos uma ligação inexplicável, irracional com o objeto de leitura.

Há explicações para isso. Geralmente tem a ver com a formação e o condicionamento ideológico.

Essas aparentes predileções ou rejeições são explicadas pelo universo social e individual de cada um.

Há também os aspectos projetivos. O leitor sente-se atraído pelo objeto lido por se assemelhar à imagem que o leitor faz de si… ou o contrário, quando sente-se atraído pelo oposto.

Mesmo quando começa a ter uma leitura consciente, em alguns momentos, há recaídas. Isto se explica por causa da criança que ainda está dentro de nós… ela se emerge e possibilita essas recaídas.

E quanto às fotonovelas, mundo-cão? Há todo um processo de identificação com o público. Geralmente ligado às frustrações e angústias de cada leitor.

(Processo catártico – se há agruras na vida, há outros piores que eu. Por outro lado, há aqueles que alimentam a ilusão de tirar “o pé da lama”).

Exemplo: investigação de leituras de operárias na cidade de São Paulo (revistas sentimentais). Resultado: busca de uma compensação.

Este nível de leitura é bastante interessante do ponto de vista investigativo, porque possibilita a identificação do universo social e do inconsciente individual.

Também se trata de uma leitura de passatempo, já que representa uma leitura de evasão. Onde o leitor permite-se desligar das circunstâncias concretas e imediatas.

Esta a razão pela qual não se pode simplesmente imputar à leitura emocional a característica de alienante.

Este é um modo encontrado para extravasar emoções, satisfazer curiosidades e alimentar as fantasias (às vezes, válvula de escape).

Importante é entender que tudo que lemos e a forma que lemos é resultado de nossa visão de mundo.

Problema: sempre há uma intencionalidade na criação. Permitir-se a leitura passiva, deixar-se envolver pela ideologia expressa são alguns problemas da leitura emocional.

Por fim, importa considerar o quanto em geral reprimimos e desconsideramos a leitura emocional, muito em função de uma pretensa atitude intelectual.

É comum as pessoas se deixarem envolver emocionalmente – isso só, não é bom.

A convivência social, cultural e política nos ajuda a caminhar para um outro tipo de leitura – a racional.

Conteúdo extraído do livro O que é leitura (Maria Helena Martins)

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