Leitura racional – 04

Leitura racional – para muitos só agora estaríamos no âmbito do status letrado, próprio da verdadeira capacidade de produzir e apreciar a linguagem, em especial a artística.

Enfim, leitura é coisa séria, dizem os intelectuais.

Para muitos, relacionar a leitura às nossas experiências sensoriais e emocionais é reduzir a leitura, revela ignorância.

Essa a postura intelectualizada e dominante – mantida por uma elite.

Obviamente, faz-se necessário distinguir essa idéia de intelectuais que estamos utilizando em nossa aula.

Entre outras coisas, esse tipo de intelectualismo limita a leitura à noção do texto escrito, pressupondo educação formal e certo grau de cultura e erudição do leitor.

Nós estamos vendo a leitura como um processo de compreensão abrangente, no qual o leitor participa com todas as suas capacidade a fim de apreender as mais diversas formas de expressão.

Nossa proposta é observar a competência para criar ou ler tanto por meio de textos escritos quanto de expressão oral, música, artes plásticas, artes dramáticas, realidades cotidianas etc.

Também não estamos restringindo a leitura a atos de caráter científico, artístico… enfim, eruditos.

Então, a leitura racional é intelectual quando elaborada por nosso intelecto – estamos falando de um processo eminentemente reflexivo, dialético.

Ou seja, ao mesmo tempo que o leitor sai de si, em busca da realidade do texto lido, sua percepção implica uma volta à sua experiência pessoal e uma visão da própria história do texto, estabelecendo um diálogo entre o texto e o leitor com o contexto no qual a leitura se realiza.

Isso implica dizer que os demais níveis de leitura são válidos. Entretanto, a leitura racional acrescenta o fato de estabelecer uma ponte entre o leitor e o conhecimento.

A leitura racional implica em reflexão, em atribuir significado ao texto e questionar tanto a própria individualidade como o universo das relações sociais.

A autora Maria Helena Martins cita um exemplo da professora Marilena Chauí que ajuda a compreender essa questão. Exemplo: estatueta de barro nordestina representando uma fábrica de farinha de mandioca.

(faxineira – a estatueta era para ela a reprodução de algo concreto e memória. Ela contemplava a estatueta, mas sua contemplação e a da professora Marilena nada tinham em comum).

(havia uma obra e dois destinatários – uma via a obra e o outro nada via).

Não significa necessariamente que haja uma leitura verdadeira e a outra errada.
O episódio e sua reflexão exemplificam o quanto significam para a leitura a história, a memória do leitor e as circunstâncias do ato de ler.

O relato ainda coloca por terra a ilusão de que só os intelectuais têm condições de assimilar certas formas de expressão, especialmente a estética.

Continuando…
Freqüentemente confunde-se a leitura racional com a investigação de um texto, com o exame de sua estrutura interna enquanto sistema de relações que o compõem…

Esse tipo de leitura, sem conectar o texto com o mundo e com as experiências do leitor, elimina a dinâmica da relação leitor-texto-contexto, limitando consideravelmente a compreensão maior do objeto lido.

A leitura racional difere das outras formas de leitura porque, por exemplo, diferente da leitura sensorial, permite conhecer o texto sem apenas senti-lo.

Já na leitura emocional, o leitor se deixa envolver pelos sentimentos que o texto desperta.

Na leitura racional o leitor visa mais o texto, tem em mira a indagação; quer mais compreendê-lo, dialogar com ele.

A leitura racional é algo exigente, pois implica no desprendimento do leitor, em vontade de aprender, num processo de criação.

Essa leitura requer um esforço especial; não pode simplesmente querer se apropriar do texto ou aceitá-lo passivamente.

A leitura racional é estabelecida a partir da quantidade de leituras feitas ao longo da vida.

Por exemplo, quem leu um único romance, pode ter opinião sobre literatura de ficção. Mas não tem parâmetro para julgar se é um bom livro.

Portanto, ao se ampliares as fronteiras do conhecimento, as exigências, as necessidades e interesses também aumentam… As possibilidade de leitura de qualquer texto, multiplicam-se.

O intercâmbio de experiências de leituras desmistifica a escrita, o livro, levando-nos a compreendê-los e apreciá-los de modo mais natural… tornando-nos leitores efetivos nas inúmeras mensagens do universo em que vivemos.

A leitura racional é feita a partir do preparo do leitor e também das pistas deixadas pelo texto.

Todo texto conta alguma coisa… nada é gratuito; tudo tem sentido – é fruto de uma intenção consciente ou inconsciente.

A leitura racional se dá a partir do reconhecimento dos indícios textuais.

Aprendemos a ler esses indícios à medida que nossas experiências de leitura se sucedem… começamos a perceber como são construídos… a intenção do autor…

No entanto, mesmo sabendo como e porque são armados os indícios não quer dizer que o texto se torne transparente para nós (sempre haverá ambigüidades…).

A INTERAÇÃO DOS NÍVEIS DE LEITURA
Não há uma hierarquia entre os níveis de leitura. Entretanto, a tendência é de que a leitura sensorial anteceda a emocional e tenhamos, por fim, a leitura racional.

Também não se deve supor a existência isolada de cada um desses níveis.

Curioso é que mesmo que o leitor esteja se propondo uma leitura a um certo nível, é a dinâmica de sua relação com o texto que vai determinar o nível predominante.

Salientamos que, há tantas leituras quantos são os leitores – há também uma nova leitura a cada aproximação do leitor com um mesmo texto (ainda quando mínimas as suas variações).

A LEITURA AO JEITO DE CADA LEITOR
Para se efetivar, a leitura precisa preencher uma lacuna em nossa vida, vir ao encontro de uma necessidade (vontade de conhecer mais).

A isso se acrescentam os estímulos e os percalços do mundo exterior, suas exigências e recompensas.

Concluindo, a leitura mais cedo ou mais tarde sempre acontece, desde que se queira realmente ler.

Conteúdo extraído do livro O que é leitura (Maria Helena Martins)

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Um comentário sobre “Leitura racional – 04

  1. `Na verdade é um texto bastante sucinto, não restando dúvidas que mesmo trazendo o espírito crítico sobre a Leitura que a autora imprimiu ao texto, falta uma crítica com relação aos indícios ontológicos da própria incompletitude da realização do assunto em voga: A leitura.Pois, a mesma nunca acontece. É como um rio no pensamento de Heráclito.Melhor seria dizer atualização em vez de acontecimento. O mais está no contexto orbital do Sein und Zeit que trata Heidegger, e, melhor conpreendido por Gadamer

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